Tenho azar, sou poeta e esse pingo de dor que me assolou
bateu em mim, meu mar agitou e meu navio afundou.
Tenho sorte, sou poeta. Nos destroços do navio descansei,
prendi o fôlego, por um tempo não respirei e de tanto vasculhar esse navio um
tesouro encontrei.
Passeando no parque com seu vira-latinha. Era a rotina
matinal.
Caminhando assim, tranquilo, avistou-a de longe. Ela vindo
em marcha tranquila e em sua direção. De longe parecia também uma vira lata
preso à coleira que ela segurava.
_A coleira é rosa! É fêmea... O Quixote anda mesmo
precisando de uma fêmea. Será que ela aceita cruzar? Droga, se eu falar assim
ela vai pensar que sou um tipo de maníaco que ataca mulheres que passeiam nos
parques com seus cachorrinhos.“Oi, vem
sempre aqui?” Idiota, vai querer oferecer uma bebida também? Idiota! E se eu só
deixar o Quixote cheirar a cadela? “Estão se cheirando... Quer ir lá em casa
almoçar?” Ahhh, não! Eu não vou falar nada, o Quixote não tá precisando tanto
assim.
Ela Passou, a cadela passou e Quixote continuou sem amar.
Ando evitando aventuras. Dessas que a gente pensa ser filho
de Cervantes e de que na história achamos que teremos papel melhor do que figurantes.
Ando evitando andar. Ir de encontro a algo, de encontro à
alguém em algum lugar, somente pela lógica que após a parte do encontro vem a
parte de desencontrar.
Ando evitando esse tempo
frio. Tenho más lembranças quando tenho algum arrepio.
Também evito as coisas rotineiras como o aumento do
colesterol, o excesso do açúcar e o desanimo nas segundas feiras.
Mas com tanta precaução só me resta evitar uma coisa que
agora conto como segredo: Me falta evitar ter tanto medo.
Sejamos breves, pois não chove lá fora, mas minha alma
escorre aqui dentro. Eu te avisei, a gente não iria sobreviver assim e agora
minha vida não é mais olhar nos teus olhos. Minha vida agora resume-se em olhar
no olho do furacão. Ler meu jornal enquanto os móveis flutuam, rodopiam e com
certeza amanhã de manhã em outra sala irão estar.
Sejamos breves, pois estamos perdidos precisando achar
caminho, precisando encontrar o terminal além do literal terminal, o nosso
terminal estado de saúde.
Sejamos breves porque conquistamos um reino, mas levantamos
a bandeira em um castelinho de areia e a maré já vai subir.
Sejamos para além de breves. Sejamos a mais nova descoberta
cientifica no campo da relatividade. Sejamos dois presentes existindo no
passado. Pois o nosso futuro viveu ali, logo, sejamos uma máquina do tempo.
De fato, sejamos breves, pois demoramos tanto na chegada que
já estamos nos atrasando na partida.
Me pergunto qual deve ser o peso da bolsa do carteiro.
Não vejo por aí carteiros cansados, de costas curvadas pelo
peso das correspondências. Vejo por aí carteiros rápidos, andar ágil. Com certeza
estes não carregam, em meio a tantas contas, alguma carta de amor. Porque
cartas de amor são pesadas. O amor não é coisa leve.
Você pode até me dizer que suas contas, por possuírem intermináveis
dígitos numéricos, chegam a pesar toneladas, mas nada me convence que o mais
pesado é sim o amor!
Veja você àquelas pessoas que amam; são amores tão pesados
que muitas vezes os casais enamorados não suportam a luta contra a gravidade.
Passam dias estirados na cama, vencidos por uma força maior. Mas voltemos ao
correio e sejamos questionadores:
Ninguém mais escreve cartas de amor?
Queria eu receber a ilustre presença de um carteiro ofegante
mas com uma boa expressão ao dizer “toma, é de sua amada”. E logo que eu abrir
o envelope teria nas primeiras linhas a esquecida brega arte de dizer “Me
desculpe a tinta borrada é que não pude conter minhas lágrimas...”.
Não se assustem quando vocês estiverem daqui a alguns anos, você
com seu devido esposo, você com sua devida esposa, em um passeio dominical por
algum museu e vossos filhos perguntarem: