domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre Ter e Ser


Tenho azar, sou poeta e esse pingo de dor que me assolou bateu em mim, meu mar agitou e meu navio afundou.
Tenho sorte, sou poeta. Nos destroços do navio descansei, prendi o fôlego, por um tempo não respirei e de tanto vasculhar esse navio um tesouro encontrei.
Tenho força, sou poeta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Dona, o Dono e o Amor


Passeando no parque com seu vira-latinha. Era a rotina matinal.
Caminhando assim, tranquilo, avistou-a de longe. Ela vindo em marcha tranquila e em sua direção. De longe parecia também uma vira lata preso à coleira que ela segurava.
_A coleira é rosa! É fêmea... O Quixote anda mesmo precisando de uma fêmea. Será que ela aceita cruzar? Droga, se eu falar assim ela vai pensar que sou um tipo de maníaco que ataca mulheres que passeiam nos parques com seus cachorrinhos.  “Oi, vem sempre aqui?” Idiota, vai querer oferecer uma bebida também? Idiota! E se eu só deixar o Quixote cheirar a cadela? “Estão se cheirando... Quer ir lá em casa almoçar?” Ahhh, não! Eu não vou falar nada, o Quixote não tá precisando tanto assim.
Ela Passou, a cadela passou e Quixote continuou sem amar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Ando Evitando



Ando evitando aventuras. Dessas que a gente pensa ser filho de Cervantes e de que na história achamos que teremos papel melhor do que figurantes.
Ando evitando andar. Ir de encontro a algo, de encontro à alguém em algum lugar, somente pela lógica que após a parte do encontro vem a parte de desencontrar.
Ando evitando esse tempo frio. Tenho más lembranças quando tenho algum arrepio.
Também evito as coisas rotineiras como o aumento do colesterol, o excesso do açúcar e o desanimo nas segundas feiras.
Mas com tanta precaução só me resta evitar uma coisa que agora conto como segredo: Me falta evitar ter tanto medo.

domingo, 29 de julho de 2012

Sejamos Breves



Sejamos breves, pois não chove lá fora, mas minha alma escorre aqui dentro. Eu te avisei, a gente não iria sobreviver assim e agora minha vida não é mais olhar nos teus olhos. Minha vida agora resume-se em olhar no olho do furacão. Ler meu jornal enquanto os móveis flutuam, rodopiam e com certeza amanhã de manhã em outra sala irão estar.
Sejamos breves, pois estamos perdidos precisando achar caminho, precisando encontrar o terminal além do literal terminal, o nosso terminal estado de saúde.
Sejamos breves porque conquistamos um reino, mas levantamos a bandeira em um castelinho de areia e a maré já vai subir.
Sejamos para além de breves. Sejamos a mais nova descoberta cientifica no campo da relatividade. Sejamos dois presentes existindo no passado. Pois o nosso futuro viveu ali, logo, sejamos uma máquina do tempo.
De fato, sejamos breves, pois demoramos tanto na chegada que já estamos nos atrasando na partida.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Partindo De Um Outro Ponto



Perdi o ponto e minhas palavras se foram pra bem depois do fim da linha.
Todas em fila, como se fosse pular do último andar.
Como andar na prancha em alto mar e não saber nadar.
Como passarinho prematuro que salta do ninho antes de maturar, antes de saber voar.

O fato é que além de perder os pontos  agora venho perdendo até mesmo as vírgulas!
A sensata e correta ortografia há tempos não me faz o menor sentido.
Parto do ponto que as respostas não estarão escritas e que parto mesmo não acontece só no início de nossas vidas.
Porque morro hoje e espero nascer outro dia.

terça-feira, 5 de junho de 2012

(Re)Pouso



É de laço o seu corpo e me prende. Me prenda que eu repreendo o que eu tenho de ruim.
Vem, moça. Venha e fique, passeie, me deixa ser estrada porque suas pegadas já estão em mim.
Fique de repouso, faça-se pousar.
E entre nós eu nunca saberei da existência do silêncio, o amor grita.

domingo, 13 de maio de 2012

Poema Do Meu Outono



E as palavras que aqui estavam saíram todas à viagem. Assim, sem aviso prévio, mas me deixaram um bilhete:
“Pedimos desculpas, estávamos todas aqui unidas a ti, mas é tempo de passagem. Não é tempo para palavras de acalanto. É tempo de silêncio e verdades.
Se antes dormíamos ao teu lado, proseando até mais tarde, hoje vamos lhe deixar só e perceba que estar sozinho não é motivo para fazer alarde.
Vê que teus poemas, os antigos e os quases antigos, já descansam em paz. Alguns até mudaram de nome, em alguns agora lemos ‘aqui jaz’.
Vê que você usou tantas palavras em vão e antes que você também nos mate nós vamos dizer ‘até mais’.
Aproveita agora a casa vazia e se esvazie também. Abre a janela pra tirar o mofo da vida.
Conserta teu caminho, poeta da calçada. Lembre-se de quem tu eras, lembre-se de quem somos e assim nossa despedida vai virar chegada."

terça-feira, 17 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cartas Passadas


Me pergunto qual deve ser o peso da bolsa do carteiro.
Não vejo por aí carteiros cansados, de costas curvadas pelo peso das correspondências. Vejo por aí carteiros rápidos, andar ágil. Com certeza estes não carregam, em meio a tantas contas, alguma carta de amor. Porque cartas de amor são pesadas. O amor não é coisa leve.
Você pode até me dizer que suas contas, por possuírem intermináveis dígitos numéricos, chegam a pesar toneladas, mas nada me convence que o mais pesado é sim o amor!
Veja você àquelas pessoas que amam; são amores tão pesados que muitas vezes os casais enamorados não suportam a luta contra a gravidade. Passam dias estirados na cama, vencidos por uma força maior. Mas voltemos ao correio e sejamos questionadores:
Ninguém mais escreve cartas de amor?
Queria eu receber a ilustre presença de um carteiro ofegante mas com uma boa expressão ao dizer “toma, é de sua amada”. E logo que eu abrir o envelope teria nas primeiras linhas a esquecida brega arte de dizer “Me desculpe a tinta borrada é que não pude conter minhas lágrimas...”.
Não se assustem quando vocês estiverem daqui a alguns anos, você com seu devido esposo, você com sua devida esposa, em um passeio dominical por algum museu e vossos filhos perguntarem:
_O que está escrito naquele papel amarelado?
_Aquilo, meu filho, era o amor.